As vinhas e a música (uma analogia nostálgica)

São já 25 anos sobre um facto que mudou completamente a forma de viver e sentir a ESAS e a academia Scalabitana: O nascimento da Tuna Académica da Escola Superior Agrária de Santarém, TAESAS.

Tudo começou sensivelmente três anos antes, tempo em que a ideia se foi formatando e amadurecendo. O largo do Seminário, a bancada do recinto da feira Nacional da Agricultura, no campo Infante da Camara, a Tasca do Raposo, o Bar da ASSETCA e obviamente o campus da quinta do Galinheiro, são alguns exemplos dos locais onde a ideia foi sendo cozinhada e apurou em lume brando…

Não era fácil impor esta vontade de criar a primeira Tuna Académica do Ribatejo e sempre nos apontavam dificuldades. O caminho era difícil de percorrer, estava cheio de ervas daninhas, muita pedra havia para partir…

Como homem do Douro que orgulhosamente sou, recordo-me que foi essa frase, “ que havia muita pedra para partir, que me deu alento para deitar mãos á obra e lutar com toda a força pela concretização desse sonho.

Como no Douro, também eu decidi que nem as pedras me haveriam de impedir de colher o fruto do meu trabalho, da minha abnegação, do meu sonho. Se no Douro as vinhas comem pedra e bebem sol, se o homem conseguiu adaptar-se à natureza aproveitando os seus recursos naturais, eu só tinha de seguir esse tão nobre e ilustre exemplo e juntando-lhe os meus conhecimentos em engenharia, fazer o mesmo. Se bem o pensei melhor o fiz…

Escolhida a parcela de terreno, fiz uma análise sumária das características do solo e da flora existente. Depois minuciosamente caracterizei o material vegetativo disponível, com especial incidência nos porta-enxertos e nas castas autóctones existentes. Depois de uma análise criteriosa, o veredito estava tomado: é possível plantar a vinha!

Comecei por preparar o terreno, que estava inculto há muito tempo e cheio de ervas daninhas a pedir uma desmatação e uma lavoura profunda. Depois foi fertilizado com um adubo especial de enraizamento, chamado amizade, e por uma mistura de paixão e orgulho pela música popular portuguesa. O último ingrediente que utilizei era um bio estimulante de origem natural, chamado ESAS e que foi fundamental para o sucesso da plantação. Escolhemos o sistema de condução em cordão bilateral, com dois braços bem abertos para receber a energia do sol e de todos quantos com o seu esforço e dedicação poderiam ajudar a vinha a crescer e a dar muitos e bons frutos. Propositadamente não foi tutorada nem aramada para que pudesse crescer apoiada exclusivamente na sua força, nas suas virtudes e fraquezas e livre de amarras…

Finalmente no dia 17 de Junho de 1989, apresentamos ao público o nosso primeiro “vinho “para consumo interno, composto por um lote de cinco castas tipicamente portuguesas sendo que três foram recolhidas em parcelas do cancioneiro nacional e duas mais refinadas fruto do melhoramento de algumas castas nacionais, mas que por terem sido fruto do nosso trabalho ainda hoje são um verdadeiro ex-libris. Servido a granel, no tradicional garrafão de 5 litros.
Dado a provar, notamos que se apresentava um vinho com boa cor rico em aromas, com força, boa acidez, frutado, fresco e que deixa agua na boca… O tempo iria encarregar-se de lhe dar outras características que só os bons vinhos são capazes de possuir e que lhe permitiriam ser engarrafado e guardado em cave, como reserva para carregar o espirito de nostalgia e de energia positiva, em qualquer momento festivo ou não.

Assim em 1992, apresentamos ao mundo dois vinhos engarrafados ainda em vinil com diferentes “Tunalidades” e que conquistaram o mercado nacional, tendo sido muito consumidos por diferentes enófilos um pouco por todo o país, fruto da enorme frequência com eram “falados” nas rádios nacionais.

Por essa altura, pudemos partilhar os palcos com figuras de proa da nossa música nacional, como por exemplo Rui Veloso, Delfins, Ritual Tejo, Santos e Pecadores e uns tais de Xutos e Pontapés, que teimavam em fazer as segundas partes dos nossos espectáculos.

A cada ano que passava a vinha aumentava a sua área sempre enriquecida com uma multiplicidade de castas tipicamente portuguesas.

A segunda metade dos anos 90 foi um ponto de viragem. Apostamos numa nova imagem, da marca TAESAS que se distinguia pela elegância e beleza relativamente ao que já existia em Portugal. A colheita foi fabulosa, fruto da entrada de novas castas, com reconhecido valor qualitativo, que trouxeram novas características organolépticas, e melodiosas, (para degustar com os ouvidos) aos vinhos que então passamos a produzir.

Por essa altura começaram a existir novos projectos de instalação de vinhas ou pouco por toda a academia Scalabitana.
Foi então que com varas recolhidas na TAESAS, nascia um projecto diferente que chegou até aos nossos dias e que produziu vinhos de muita qualidade, capazes de ombrear com os melhores vinhos nacionais – a Scalabituna.

Em 2003 apresentamos ao mundo mais um conjunto de vinhos que dados a provar, fizeram as delícias de todos quantos sentiram o seu sabor. Engarrafados em formato CD, apresentado em directo na RDP, num programa de Carlos Alberto Moniz, com um rótulo bonito num pacote de 11 monocastas dava pelo nome de não há outra escola assim! Foi um enorme sucesso comercial e artístico, esgotando a primeira edição o que levou à produção de uma segunda. Ainda hoje há inúmeros exemplares guardados um pouco por todo o lado, nos mais diversos tipos de garrafeiras privadas. As suas músicas estão nas redes sociais e fazem furor no youtube onde a “Lagrima” já ultrapassou as 50.000 visualizações….
Estes vinhos prestigiaram muito o nosso trabalho, e permitiram que chegasse-mos a locaias como a ilha do Pico nos Açores e a um programa em directo na RTP, onde cantamos ao lado de muitos artistas nacionais e em parceria com um tal Manuel Freire, na mítica musica “Pedra Filosofal”.

Hoje a vinha tem 25 hectares e precisa de uma poda de rejuvenescimento que já este ano se iniciou. A curto prazo sairão novos vinhos para o mercado, estão em fase de produção e estágio em madeira de carvalho português, no estúdio/laboratório, Pé de Vento. Contamos dá-los a provar ainda este ano.

O sonho realizou-se, graças ao esforço e dedicação de muitas centenas de TUNOS que por aqui passaram, a vinha está de pé, em razoável estado fitossanitário e se continuar a ser tratada com a força da amizade, com a paixão pela musica e estimulada pela grandeza da ESAS, aguenta mais 25 anos. Obrigado a todos quantos tornaram este sonho realidade.
Ao sucesso da TAESAS, Ao alto ao alto Charruas!
Saudações académicas,
Alberto Miranda, Fundador